terça-feira, 24 de maio de 2011

DISLEXIA DO DESENVOLVIMENTO OU DE PROPRIOCEPÇÃO

Prof.Dr.Paulo Ricardo Souza Sampaio
Prof.Assistente de Oftalmologia da FMABC
Médico Oftalmologista

A Dislexia de Propriocepção, também chamada de Síndrome do Déficit Postural, é definida como uma “perturbação da aprendizagem da leitura que surge apesar de inteligência normal, ausência de perturbações sensoriais ou neurológicas, de instrução escolar adequada e de oportunidades socioculturais suficientes. È, portanto, uma perturbação das aptidões cognitivas fundamentais, freqüentemente de origem constitucional” (Federação Mundial de Neurologia).

Por propriocepção entendemos como a apreciação da posição, do equilíbrio e das suas modificações pelo sistema muscular (não confundir com somestesia, termo que designa a sensibilidade dos diversos estímulos sofridos pelo corpo com exceção dos provenientes dos órgãos sensoriais).

O sistema visual permite a colocação em pratica de mecanismos dos quais um dos papéis essenciais é tornar conscientes as imagens que nos rodeiam e nos interessam.

Entre milhares de informações que o conjunto dos nossos sentidos fornece ao cérebro, este último não deve reter senão as que nos são úteis. Para tal utiliza mecanismos de supressão e as imagens representam senão uma ínfima parcela do que nosso cérebro recebe e interpreta. O restante das imagens é tratado ao nível “infraliminar” e não vem perturbar a nossa consciência.

Esta noção é fundamental para compreender a relação que existe entre postura e visão e, por essa via, propriocepção e dislexia.

Utilizamos essas imagens “inconscientes ou pouco conscientes” para regular a nossa postura, nos situar no ambiente e situar os objetos no espaço.

Quando uma imagem entra no nosso campo de visão somos capazes de procurar ou evitar um objeto existente nessa imagem por modificação espontânea de nossa postura. Para tal não necessitamos identificar a imagem a um nível elevado de consciência. Isso é facilmente percebido quando um objeto em movimento entra em nosso campo de visão e interpretamos como ameaçador.

Estes mecanismos, que lidam com estruturas neurológicas bastante primitivas na filogênese, podem não estar perfeitamente regulados. Por conta disso surge um conjunto de perturbações, sem relação aparente entre si, fazendo com que o paciente migre entre diversas especialidades médicas, odontológicas e pedagógicas, até que seja avaliado por profissional alerta para essa anormalidade.

É importante compreender e lembrar que o olho não serve somente para ver mas que também faz parte do complexo sistema que permite manter uma pessoa em postura adequada e situar-se no espaço.

Para diagnosticar a Dislexia da Propriocepção o Oftalmologista especializado analisa o Processamento Visual ou seja, analisa a relação existente entre a Visão, os demais órgãos dos sentidos e a Postura. Quando constata a existência de perturbações nessa relação fecha o diagnóstico de Síndrome do Déficit Postural e inicia o tratamento global do paciente.


A LEITURA E A ESCRITA NA SINDORME DO DEFICIT POSTURAL


Durante o processo de leitura a imagem da palavra a ser lida entra no campo de visão antes de ser lida e interpretada. Esta imagem provoca uma adaptação da posição relativa dos olhos e da cabeça, adaptação essa controlada pelo nosso sistema postural. O indivíduo irá “procurar a palavra a ser lida” para coloca-la em um “campo visual de interesse”, antes de colocá-la sobre a porção principal da retina (fóvea) para decodifica-la.

Essa procura supõe a existência de um equilíbrio perfeito no posicionamento relativo dos olhos e da cabeça, sejam elementos a serem lidos móveis ou imóveis. Supõe também a localização perfeita da palavra a ser lida.

A propriocepção ocular é, portanto, dependente da propriocepção geral.

Estudos recentes mostram, também, que a dislexia não se resume a um problema de posicionamento do olhar. As alterações encontradas na propriocepção visual acontecem também nas vias auditivas, gustativas, táteis e olfativas.


TRATAMENTO DA DISLEXIA DA PROPRIOCEPÇÃO


O tratamento da dislexia da propriocepção envolve todo o sistema postural e dos órgãos dos sentidos.

Estudos realizados com disléxicos na França, Portugal, Finlândia, Suécia, Alemanha, Inglaterra e Brasil mostram que o tratamento multiprofissional é o mais indicado.

Na especialidade da Oftalmologia o uso de lentes prismáticas de baixo grau (1 até 4 prismas), com a base posicionada para o lado onde a avaliação postural global mostra maior contração muscular, promove o realinhamento deste complexo sistema.

Cada paciente apresenta um desalinho proprioceptivo diferente. Isso obriga uma avaliação médica demorada e cuidadosa. Sabemos que uma interpretação inadequada das informações que o corpo do paciente expõe, poderá implicar na prescrição errada das lentes prismáticas e, piorar mais ainda o quadro.

As lentes prismáticas nada tem a ver as lentes para tratamento do astigmatismo, da miopia ou da hipermetropia. Estes vícios de refração devem ser concomitantemente corrigidos.

Uma vez prescrita a lente prismática os óculos devem ser cuidadosamente confeccionados e mantidos. Armações frouxas, tortas ou mal posicionadas também pioram o quadro. São óculos, portanto, que exigem atenção constante dos pais, do próprio paciente e, do óptico para que estejam sempre em excelente estado de conservação.

São lentes que devem ser usadas constantemente, durante todo o dia. Não são óculos “para descanso ou para leitura”.

O paciente necessita reavaliações freqüentes para que se possa verificar se o sistema postural está sendo devidamente ajustado. Muitos pacientes, após algum tempo, necessitam reduzir o prisma prescrito ou até mesmo elimina-lo. Estas reavaliações também devem ser realizadas com atenção e pelo tempo de exame que for necessário para que a prescrição não seja alterada de forma intempestiva ou demasiadamente lenta.

Alguns pais não conseguem valorizar o tempo de exame e o esforço do profissional no estudo do caso de seus filhos e chegam a considerar “injustas” a cobrança dos honorários dispendidos nas avaliações e reavaliações necessárias. Cabe lembra-los sempre que o custo social e profissional de um mau leitor e as conseqüências futuras pelo mal posicionamento postural terão custo muito mais elevado no futuro. A boa relação médico-familia-paciente-equipe multiprofissional é fundamental para o sucesso de qualquer tratamento. Se essa relação for afetada é preferível que o paciente nem use as lentes prismáticas necessárias. É importante também que o paciente seja acompanhado por Oftalmologista que conheça a Síndrome do Déficit Postural a fundo. Prescrições mal orientadas trazem conseqüências desastrosas.


A EQUIPE MULTIPROFISSIONAL


O trabalho do Oftalmologista não é único. O professor de Educação Física, o Visopedagogo, o Fonoaudiólogo, o Psicopedagogo (e também o Psicólogo, quando necessário) participam ativamente do tratamento. A prescrição dos prismas é importante mas, não deve nunca ser usada de maneira isolada.

Dislexia não compromete a inteligência

Definida como um distúrbio ou transtorno de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração, a dislexia é genética e hereditária e atinge cerca de 5% a 17% da população mundial. De acordo com a Associação Internacional de Dislexia, o distúrbio “é uma das várias distintas inabilidades de aprendizagem. É uma desordem específica da linguagem, de origem constitucional e caracterizada por dificuldades na decodificação de palavras isoladas”.

Para a professora titular do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ângela Maria Vieira Pinheiro, são consideradas disléxicas as crianças com extrema dificuldade na aprendizagem da leitura e da escrita, embora apresentem pelo menos inteligência média e ausência de problemas gerais de aprendizagem. Além disso, suas dificuldades de leitura não devem estar associadas a fatores tais como deficiências sensoriais não tratadas, desvantagem socioeconômica, problemas emocionais, oportunidades educacionais inadequadas ou faltas freqüentes à escola.

Psicóloga, com doutorado em psicologia cognitiva pela Universidade de Dundee, na Escócia e pós-doutorado pela Universidade de Educação de Ludwigsburg, na Alemanha, Ângela Pinheiro tem experiência na área de Processos Cognitivos Básicos. Sua atuação se dá, principalmente, na área da linguagem escrita: reconhecimento de palavras, desenvolvimento da leitura e da escrita, construção de medidas de reconhecimento de palavras e dislexia do desenvolvimento.

Ela explica que a dislexia é um profundo déficit fonológico que se manifesta – mas não exclusivamente – na leitura e na escrita, e pode existir até mesmo em culturas não letradas. Segundo a psicóloga, a descoberta mais consistente, tanto na pesquisa psicológica como na neurociência, é que o principal problema de leitura dos disléxicos é um vagaroso e impreciso reconhecimento de palavras. “Nessa área, a dificuldade reside no processo de decodificação fonológica: a transformação de letras e de seus padrões em um código fonológico. Esse código é que permite o acesso à pronúncia da palavra e também ao seu significado,” argumenta.

Ângela Pinheiro adianta que a dislexia não compromete a inteligência e uma vez tratado, o disléxico pode vir a se destacar inclusive na carreira acadêmica. O tratamento é feito por meio de intervenções explícitas e intensivas em leitura, que diferem de acordo com o tipo de dislexia. Ela diz que, devido ao distanciamento entre o meio acadêmico e as escolas, é de se esperar que as professoras, por desconhecerem os avanços da ciência da leitura, não estejam preparadas para a inclusão de alunos disléxicos. A questão, destaca, é até que ponto deve ser possível fazer intervenções de alta qualidade para todas as crianças que precisam de assistência.

Transformar em prática todo o conhecimento adquirido seria um desafio para os pesquisadores, acredita a psicóloga. De acordo com ela, é necessário dispor de condições de financiamento para o treinamento de professores de forma a garantir que todas as crianças recebam o tipo de instrução em leitura que as transformarão em bons leitores.

Matéria extraida do http://portaldoprofessor.mec.gov.br

Discalculia

A discalculia é um distúrbio neurológico que afeta a habilidade com números. É um problema de aprendizado independente, mas pode estar também associado à dislexia. Tal distúrbio faz com que a pessoa se confunda em operações matemáticas, conceitos matemáticos, fórmulas, seqüência numéricas, ao realizar contagens, sinais numéricos e até na utilização da matemática no dia-a-dia.

Pode ocorrer como resultado de distúrbios na memória auditiva, quando a pessoa não consegue entender o que é falado e conseqüentemente não entende o que é proposto a ser feito, distúrbio de leitura quando o problema está ligado à dislexia e distúrbio de escrita quando a pessoa tem dificuldade em escrever o que é pedido (disgrafia).

É muito importante buscar auxílio para descobrir a discalculia ou não no período escolar quando alguns sinais são apresentados, pois alguns alunos que são discalcúlicos são chamados de desatentos e preguiçosos quando possuem problemas quanto à assimilação e compreensão do que é pedido.

Também é de grande importância ressaltar que o distúrbio neurológico que provoca a discalculia não causa deficiências mentais como algumas pessoas questionam. O discalcúlico pode ser auxiliado no seu dia-a-dia por uma calculadora, uma tabuada, um caderno quadriculado, com questões diretas e se ainda tiver muita dificuldade, o professor ou colega de trabalho pode fazer seus questionamentos oralmente para que o problema seja resolvido. O discalcúlico necessita da compreensão de todas as pessoas que convivem próximas a ele, pois encontra grandes dificuldades nas coisas que parecem óbvias.

Por Gabriela Cabral
Equipe Brasil Escola