sexta-feira, 2 de maio de 2008

Uma esperança para quem tem dislexia

Ainda não dá para falar em cura da dislexia, síndrome que torna as pessoas quase incapacitadas para a leitura. Entre 38 a 45% das pessoas que têm dificuldade de aprendizagem sofrem desse mal, muitas vezes confundido, nas escolas, como falta de inteligência e até preguiça. «O sistema educacional não está preparado para detectar essas dificuldades e o exame oftalmológico convencional não detecta a síndrome, que pode ocorrer até em quem já usa óculos de graus e enxerga bem, pois o problema não é de visão, mas do processamento da informação visual no cérebro. A leitura é lenta, segmentada, difícil, comprometendo a compreensão e memorização, produzindo cansaço, sonolência, enjôo, irritação, distração etc», esclarece a oftalmologista Márcia Guimarães, do Hospital de Olhos de BH. Ela vem usando, com sucesso, um tratamento com filtros especialíssimos que estão ajudando os portadores de dislexia a ler normalmente, muitas vezes reintegrando-os ao convívio social e melhorando sua qualidade de vida. Os filtros foram desenvolvidos pela dra. Helen Irlen, psicóloga americana com mais de 30 anos de especialização em déficits de leitura e aprendizagem em adultos e crianças, que esteve em BH para ministrar um curso teórico e prático sobre sua técnica. «Após dois anos e meio de trabalho com os filtros, e convencidos dos bons resultados, convidamos a Dra. Helen ao Brasil para difundir a técnica que, embora usada em mais de 34 países, ainda não é bem conhecida em nosso meio», esclarece a oftalmologista.


Sempre ouvi falar em dislexia, mas não conhecia a expressão «dislexia de leitura» que você usa. Tem outra dislexia que não seja de leitura?

Na verdade, toda dislexia implica dificuldades de leitura e com a maneira como as palavras são decodificadas. Demos o nome de «dislexia de leitura» para enfatizar que as dificuldades de aprendizado são decorrentes dessa alteração neurobiológica que acompanha a dislexia. Afinal, de todos os sentidos, o mais importante na aprendizagem é a visão, 85% responsável pelo que aprendemos ao longo da vida. Leitura é habilidade que precisa ser ensinada, não é automática. É processo complexo, envolve interações visuo-perceptivas e funções cognitivas ou cerebrais. É preciso coordenação ocular à medida em que se move ao longo de cada frase, da esquerda para a direita, com pausas quando percebemos palavras ou partes delas que são continuamente adicionadas em unidades de pensamento. A interpretação ao que se lê se dá com base na experiência pessoal e educacional. Uma vez que se aprende a ler, passamos a ler para aprender e é neste momento que os disléxicos têm suas dificuldades evidenciadas. Se o apoio não ocorrer precocemente, a defasagem vai se agravar acarretando auto estima, rejeição à escola, irritabilidade e desânimo, depressão, agressividade, pois a dislexia afeta o modo como as informações que chegam ao cérebro são processadas, afetando a habilidade de ler, escrever, falar, soletrar, pensar, organizar informações, calcular e interagir. Pode ser uma ou várias dessas dificuldades, mas o problema com leitura e escrita é o mais comum. Afeta todas as idades, com inteligência normal ou superior à média e está relacionada a uma desorganização no processamento cerebral das informações recebidas pelo sistema visual.

Pode ser considerada doença?

Não, no sentido comum da palavra. Os disléxicos tem, em geral, saúde normal. Com freqüência, há disléxicos com habilidades intelectuais acima da média, extremamente criativos, com facilidade de absorver tecnologia, musicalidade por terem senso auditivo desenvolvido (compensando as dificuldades com visão) e outras capacidades surpreendentes, já que suas associações cerebrais os levam a outras soluções e ações. É uma síndrome.

E é genética?

Sim. Em geral, quando a criança apresenta dificuldades, pelo menos um dos pais também apresenta sintomas, seja uma leitura lenta, rejeição à leitura ou preferência por atividades onde essa habilidade não é tão essencial. Se ambos os pais têm dificuldades, a chance é proporcionalmente maior. Um irmão pode apresentar o problema e outros não. Os pais têm dificuldades ao ver o desempenho escolar do filho, as cobranças são grandes, frustram-se com escola e professores, mesmo quando a escola faz o diagnóstico e adota medidas de suporte. Nem sempre há a melhora esperada. Devido à hereditariedade, há medo e insegurança dos pais: será que o filho passará por tudo que sofreram silenciosamente nas escolas e universidades? Eles não sabem a quem recorrer. Acusam a si mesmos e há mães que deixam a profissão para se dedicar ao filho. Outros adotam o prêmio e a punição ou optam por ignorar e a relação pais-filho fica difícil. Alguns procuram psicopedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, neuropsicólogos, musicoterapeutas etc., apoio interdisciplinar importante, mas que, em muitos casos, significa investimento que poucas famílias podem ter. E, às vezes, o retorno é mínimo. E os pais continuam tentando, pois sentem que a criança tem habilidade e potencial.

Conte alguma experiência de consultório.

Não raro, enquanto testamos os filhos, os pais se animam e descobrem que para eles também melhora demais o uso dos filtros que propomos e confessam que sempre tiveram dificuldades na leitura ou «tinham trauma» por ter de ler em voz alta. Há situações pitorescas como o pai de um menino, um administrador de empresas que não tinha paciência com contratos e livros de contabilidade, que o deixavam cansado e com dor de cabeça. Então, ia fazendo sempre o trabalho de balcão e delegava ao sócio a parte burocrática. Esse pai, dois meses mais tarde, vendo a boa resposta do filho após o tratamento, nos procurou para sua própria avaliação. Como o filho, era portador de dislexia. Usando os filtros seletivos que lhe proporcionam conforto visual e reduzindo o estresse à luz, animou-se a olhar os livros da empresa e descobriu que muita coisa estava mal administrada e a empresa poderia estar tendo um lucro maior caso estivesse à frente dos livros.

Como a pessoa disléxica enxerga?

Uma criança nos relatou o seguinte: «E como se o texto estivesse escrito em cima da água. Quando começo a ler, alguém joga uma pedrinha e tudo começa a balançar, as palavras se abrem e fecham, as linhas se juntam e a leitura vai ficando impossível porque nada se mantém em foco por muito tempo, especialmente em volta do ponto central que estou mirando». Há sempre fotofobia, dificuldade de manter atenção, de olhar um ponto e manter o restante do ambiente parado e focalizado e outros sintomas. Alguns são distraídos, desastrados, caem, derrubam objetos, não conseguem ler a pauta musical pois as linhas balançam e as notas saltam, não conseguem pegar uma bola direito, detestam ambientes ruidosos, demoram a responder porque não escutam rápido, não conseguem ficar parados muito tempo, preferem o escuro e sentem vertigens em ambientes muito claros.

E há graus de dislexia?

O diagnóstico é feito por equipe multidisciplinar com neurologistas, neuropsicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos etc. É um diagnóstico complexo, pois os sintomas são variáveis. Como oftalmologistas, não nos compete lidar com suas manifestações ou conduzir clinicamente/terapeuticamente os casos. Porém sabemos que a área visual pode estar nas dificuldades dos disléxicos. Alguns problemas oculares podem estar na origem das manifestações e devem ser excluídos por exames. O que constatamos, através da experiência, usando os filtros seletivos por 18 meses, é que há melhora significativa nos casos de dislexia «visual» leves ou acentuados. A intensidade da dislexia é aferida pela equipe. Habitualmente, os casos vêm acompanhados por relatórios de especialistas que nos encaminham os pacientes.

Como é o tratamento?

O Método Irlen foi desenvolvido para quem tem intolerância à luz, fazendo com que o processamento cerebral das informações que chegam pela visão se apresentem de modo distorcido, criando desconforto, dor de cabeça, falta de visão em profundidade, dificuldade de detectar a distância entre um objeto e outro, entre carros, dificuldade de transcrever do quadro para o caderno, do livro para uma folha etc. Essas distorções causam uma sensação de que, embora o centro da visão esteja em foco, ao redor tudo se move ou fica desfocado. É como se o cérebro tivesse que bloquear essas sensações e ainda por cima ler e compreender. O esforço é demasiado e não há como sobrar uma reserva para raciocinar e se recordar do que leu. O resultado é a frustração, que tende a aumentar na medida em que a leitura se prolonga. Muitos desistem...

Mas como funciona o método?

Ele detecta os comprimentos específicos da luz visível que devem ser bloqueados ou neutralizados para que as distorções sejam reduzidas ou desapareçam. Em duas etapas: na primeira, é feita uma triagem entre uma dezena de cores para facilitar o desempenho e o conforto visuais na leitura. Os efeitos são imediatos e progressivos à medida em que a pessoa os utiliza sempre que for ler. Quando o desconforto visual atinge a visualização à distância, transcrição de material do quadro, esportes, direção de veículos etc, são receitados filtros seletivos espectrofotocromáticos em combinações individualizadas que são acrescentados caso a pessoa seja míope, hipermétrope etc, aos seus óculos habituais. A seleção é cuidadosa devido a especificidade individual e nunca demora menos que três horas, pois cada sintoma é avaliado com alterações nas condições ambientais _ luzes artificiais, noite e dia etc _ para que possam ser neutralizados através das múltiplas combinações possíveis entre as dezenas de filtros disponíveis. As lentes ou filtros espectrofotocromáticos têm gradações sutis que aos olhos do próprio examinador parecem iguais, mas para o portador da síndrome produzem reações de adaptação completamente distintas.

Desde quando o Hospital de Olhos utiliza o método e como chegaram a ele?

Durante os programas de Saúde Ocular que a Fundação Hospital de Olhos faz há mais de 15 anos, nos deparamos com um índice inquietador de pessoas que ignoravam ser portadoras de deficits visuais, muitos deles de fácil tratamento se diagnosticados precocemente, mas ignorados porque a visão, ao contrário da audição, da fala etc., não pode ser aferida facilmente: sabemos se alguém não escuta bem, se gagueja, se é rouco etc., mas como a visão é um processamento cerebral de dezenas de imagens picadas enviadas a cada segundo, o resultado final só a pessoa é que sabe. Assim, ela assume que está «vendo» como os demais, mas na verdade pode estar desfocada, com baixa qualidade, com halos de luz etc. e, por ter sempre «visto» assim, acha que é o normal, sem saber que pode ser melhorar com exames, cirurgias, exercícios oculares etc. Crianças verbalmente brilhantes, espertas e criativas e com «nada consta» no exame oftalmológico habitual, não iam bem na escola. Tinham caligrafia ruim, escreviam com vocabulário muito aquém da expressão verbal, cometiam erros repetidos, não conseguiam ler por mais de 10 ou 15 minutos sem se distrair ou se queixar, eram lentas em tarefas escolares, gostavam de locais com pouca claridade, pareciam ficar no mundo da lua e nem percebiam que já tinha anoitecido. Isso nos incomodava pois essas pessoas se consideravam menos capazes do que os colegas, preguiçosos por pais e professores e sentiam-se injustiçados por se esforçarem e terem notas abaixo do que sabiam. Buscamos alternativas e encontramos o Irlen. Visitamos os centros especializados na Inglaterra e EUA, fizemos cursos, entrevistamos clientes e começamos a trabalhar com o método em 2005.

E vocês fizeram uma interferência no método. É isso?

Embora fosse óbvia a satisfação dos pacientes após adaptação com os filtros, nossa formação como médicos nos induziu a buscar formas de quantificar os ganhos para aferir a habilidade prévia e a intensidade dos sintomas antes e depois do tratamento. Além disso, a metodologia era toda baseada em padrões da língua inglesa e não sabíamos o resultado em uma população brasileira. Foi preciso traduzir e adaptar a técnica. Sentimos necessidade de comparar resultados e o progresso que parecia constante com uma evolução favorável a cada nova reavaliação. Nossa formação oftalmológica foi sendo acrescida de informações em Neuropedagogia, Psicologia Educacional, Pedagogia, etc. Depois passamos a avaliar resultados de modo estatístico, com questionários e análise de parâmetros. Parte dos dados provém do DPLC - Diagnóstico Padrão de Leitura e Cognição - incorporado ao nosso protocolo de aplicação dos filtros Irlen.

Por que o interesse pela dislexia?

O que nos motiva a investir nisso são as estatísticas americanas e européias que mostram a incidência enorme (65 a 72%) de disléxicos entre os presidiários. A dificuldade escolar desanima a pessoa a estudar, a fazer um curso técnico ou superior, levando-a ao subemprego, desemprego e à marginalidade. Some-se a isso a baixa auto estima, o rotulo de preguiçoso e desastrado e temos uma pessoa infeliz e perdendo sua inserção social. O custo social é enorme e os efeitos de uma campanha de resgate dessas crianças ainda na base da pirâmide escolar é fundamental para lhes garantir futuro digno e sua integração à sociedade.

Mirtes Helena
Editora-Adjunta - Jornal Hoje em dia